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Barca do Fia em Mentawai por Fábio

O ano de 2016x foi marcado por ser difícil financeiramente. As marcas se retraem e atletas são obrigados a correr atrás mais do que nunca. Em tempos como este, ouvimos falar também que a dificuldade faz muitas vezes as pessoas buscarem novos caminhos, se reinventarem, etc. Não me acomodei e a recente trip para o arquipélago de Mentawai, na Indonésia, mostra esse lado. Desde dezembro do ano passado, buscava uma parceria com agências de viagem para botar em prática um projeto de acompanhar grupos em surf trips, e ao fechar com a TGK Surf Operator, a empreitada acabou se realizando com sucesso. Com três meses de antecedência em divulgações, fechamos a trip por completo cerca de duas semanas antes.

 

  No último dia 18 de outubro embarquei junto a outros 10 surfistas para Mentawai  no M/V Star Koat. De conhecido, apenas o amigo residente também na cidade em que vivo, Marcelo Pretto, ex-fotógrafo de revistas especializadas em surfe na década de 90. O ingresso de Marcelo na barca foi uma surpresa e também uma alegria, pois sabia que, com seu bom humor, se não desse onda a diversão da galera já estaria garantida. Marcelo pilhou mais dois amigos seus a embarcarem conosco na trip – Leandro Huertas e Luiz Rodarte, ambos de São Paulo. Pilhados por verem o anúncio da trip no Instagram, reforçaram a trip Tiago e Gustavo Camerino, um de Bombinhas (SC) e outro de Salvador (BA). Em comum, os dois tinham o sonho de conhecer a Indonésia e não deixaram passar a oportunidade. De São Paulo, também embarcou na trip o advogado Ricardo Leitão, que acabou nos encontrando em Kuala Lumpur, penúltima parada antes de chegarmos à cidade de Padang, em Sumatra.

Já na chegada ao hotel Mercury, que recebe muitos dos surfistas que embarcam e desembarcam das trips em Mentawai, encontramos o restante do grupo: Felipe Feijão, que veio direto de Niterói em voos diferentes dos primeiros seis citados, e mais quatro surfistas também do estado do Rio de Janeiro que já se encontravam na “Indo”. Entre eles, Hugo, Felipe Correa, Fernando Fefa e Luis Henrique. Também já o conhecia e foi mais uma grata surpresa ter sua presença na embarcação, que já nos aguardava no porto. E ao escurecer, começava nossa jornada de cerca de 12 horas de navegação até nosso primeiro destino, HT’s, conhecida também como Lances Rights. Por ser fim de temporada, alguns dos clientes da barca que me procuraram antes do embarque chegaram a questionar sobre o tamanho das ondas nessa época. Minha resposta era que nos últimos três anos tinha surfado mares excelentes no mesmo período.

Para a nossa felicidade, a previsão estava ótima para os três primeiros dias em que ficaríamos ancorados ali. Ventos calmos nos proporcionaram uma navegação excelente até o pico. Logo na primeira manhã as ondas estavam de 4 a 5 pés e com umas perdidas de 6 pés. Outro fator positivo de fim de temporada era que algumas companhias que fazem as ilhas ja estavam ancoradas, e isso traduzia-se em pouco crowd.
Dividimos o primeiro surfe com o Mangalui, embarcação que usei na minha primeira trip para Mentawai, em 1997, para gravar um programa Surf Adventures, que, antes do prestigiado filme, rolava no Sportv. No momento em que a âncora era lançada no reef, nosso guia e amigo Bruno Veiga completou os dizeres da palestra inicial da noite anterior: “Por favor, galera, vamos esperar uma meia-hora para que os dois surfistas da outra embarcação que estão na água desfrutem sozinhos mais um pouco da sessão deles. Em seguida cairemos aos poucos, ok?”.

     

Chegar a Mentawai com swell bombando é alegria pra uns e preocupação pra outros. Como ali se tratava de um grupo não profissional, os questionamentos eram muitos, tal como a apreensão às ondas. Qual o tamanho da prancha a cair, que configuração de quilha, melhor usar botinhas? Essas eram algumas das dúvidas, mas é claro, faziam parte da primeira caída. Aos poucos a galera foi entrando e se posicionando mais ao inside, onde algumas séries vinham mais cheias, já que mais  ao fundo estavam maiores e mais cavadas. Passei para a primeira sessão afim de pegar uma onda mais tubular e até achei algumas, mas, por estar demorando um pouco, depois me juntei à galera para um melhor entrosamento que também se concretizava em pilha, incluindo para uma possível ida à seção do outside, que, aparentemente mais rasa, deixava a galera mais apreensiva. Mas isso se tratava apenas da primeira caída, pois naquele fim de tarde, a turma, mesmo não indo pro primeiro pico, já estava bem mais solta.

De cara tentava desvendar o surf da turma, e naquele primeiro momento chamou atenção o Fernando Fefa e seu backside, aplicando curvas bonitas, seguidas de muitos leques de água ao puxar sua prancha mais uma vez para a base. Com certeza tínhamos ali um surfista de nível avançado. O baiano Gustavo mostrava atitude, descendo algumas ondas com a base sutilmente postada para a parte frontal de sua prancha. Imaginei que aquela seria uma boa base para tubos de backside e que no decorrer da viagem poderíamos ver a evolução. Esta sensação era de certa forma válida também para Hugo e Felipe. Já Leandro Huertas, que surfa de longboard, tinha a força para a remada com seu 9” pés shapeado pelo gênio Neco Carbone. Ele poderia ficar um pouco mais ao outside, mas acabava ficando junto da turma, até porque, fazendo a parceria com Luiz Rodarte, um cara “cool” de 52 anos, saía sempre aquela boa conversa durante as séries.

Estes dois, na companhia de Marcelo Pretto, que começou devagar, observando bastante, completavam a trinca de zoação naquele período. Os goofies Luis Henrique e Ricardo Leitão pegaram boas e mostraram nível, aliás, ambos já bons frequentadores da Indonésia, tendo Luis inclusive emendado duas trips. Felipe Feijão deu alguns drops, fazendo jus a quem vem de Niterói bota pra baixo ,afinal sua escola era Itacoatiara. Acredito que, com menos experiência, estava Tiago Amorim, que ao ver a bancada rasa da seção chamada de “mesa de cirurgia”, devia estar cabreiro.
Nosso fotógrafo e guia Bruno Veiga, entre as sessões de cliques, como de costume, pegou as suas ondas em seu stand up 7’10”. Conhecedor do pico, boas ondas e algumas da série foram surfadas. Com o por do sol, várias Bintangs já foram abertas em tom de celebração, afinal, para tirar o ranço da longa viagem, tudo estava perfeito.

Com a maioria goofy, no dia seguinte acordamos em Lances Lefts com altas ondas. Como tinha virado a noite em claro devido ao fuso horário, não tive disposição para madrugar no pico. Em meio ao café da manhã reforçado, cambaleando, assistia à session. Lances Lefts é um passeio, onda longa, e com a maré vazante os tubos se apresentam, mesmo em menor escala. Leandro, com seu long, estava se divertindo, tal como Luis Rodarte, que, de backside, já se mostrava mais à vontade que na primeira session. Marcelo Pretto, da mesma forma, e de frente pra onda, já vinha dando boas rasgadas, assim como Fernandinho, fazendo um surfe já em alto nível. Mais tarde, descobri que sua escola era a praia carioca, o Leme. Ricardo Pixa pegou boas, Felipe e Hugo também. No entanto, Luis Leitão teve o momento do dia ao pegar um tubo limpo em uma onda da série. Felipe Feijão pegou umas ondas em que passou raspando na bancada durante a maré seca, e nessa hora, eu, que já tinha entrado também na água e já de cabeça feita, saímos pro almoço. Aliás, segundo dia de pratos exóticos como um arroz de polvo. Ê, beleza!

Macaronis é uma das ondas mais famosas e de alta performance. O zum zum zum na barco era de que a turma estava agoniada pra ir pra lá. Com as leis do surfe local, devido ao resort em terra, apenas dois barcos são permitidos por dia no pico e mediante reserva antecipada. Não lembro agora se não tínhamos reserva ou se, por sorte, só havia uma embarcação no pico. O fato é que desfrutamos de altas ondas em mais um dia clean e ensolarado. Nossa trip estava dos sonhos! A galera fazia a festa e foram muitas horas na água com todos já bastante soltos, inclusive disputando muitas ondas (risos). E essas disputas faziam a alegria noturna, quando as fotos feitas durante o dia por Bruno eram exibidas. Aplausos para as boas manobras, posicionamentos e muita zoação quando alguém aparecia na frente do outro exibindo aquela clássica rabeada (risos). A essa altura, a turma já estava se conhecendo e o puxador da zoação Marcelo Pretto, também neste quesito, já estava soltinho na vala.

Para o dia seguinte, a previsão era de vento ruim para Macaronis, e também, como não tínhamos reserva, zarpamos para a região de Thunders, onde ficamos por cerca de três dias, até porque o mar já vinha em declínio. Previsão confirmada com o vento maral em Thunders Lefts. Levanta âncora para checarmos a direita. Com a turma já cansada de três dias intensos de surfe, esse dia já foi aquele embaço pra cair na água. Sendo assim, um dos capitães seguiu com a documentação de todos para efetivar o pagamento da taxa de US$ 77, que agora é cobrada em Mentawai, em uma ilha próxima. Aos poucos a turma foi caindo em uma direitinha em meio a uma bela baía que funcionava apenas com condições mínimas. Estava divertido e a galera fez a mala, no entanto, essa não era a direita procurada, que estampava uma foto de Taj Burrow em uma das revistas disponíveis no barco.

 
Rápida e tubular no drop, mas depois engordava, caímos nessa direita à tarde. Fui primeiramente com Ricardo Leitão tentar um posicionamento que possibilitasse pegar o tal tubo. Bem difícil, pois a onda vinha de lado e nem sempre o triângulo era no mesmo lugar. Mesmo assim, deu pra pegar ótimas com minha fish biquilha 5’6. A turma que não se arriscou nesse primeiro momento foi mais uma vez pra direitinha dentro da baía. Mais tarde, eu e Ricardo fomos ao encontro de todos pra completarmos a bagunça, afinal, lugar sem ninguém e chegam 12 caras, vira uma festa. A sessão estava boa, e ao visualizar uma onda mais ao fundo, pilhei Luiz Rodarte pra ir lá.

Remada de uns 8 minutos e já estávamos tentando nos encontrar no lineup. Ainda consegui pegar um tubo nessa onda e Luiz fez dois drops, mas apesar do fim de tarde ainda render luz, uma tempestade nos forçou a voltar pro barco mais cedo. Como de costume, a galera faz sempre uma session de relax em alguma praia; a escolhida foi a pequena baía desta direitinha relatada. Depois de mais uma manhã de surf hotdog, o capitão encheu um cooler e a “macharada” foi toda pra uma grande comemoração aos dias surfados até ali. Entre petiscos e Bintangs em meio à contemplação daquela paisagem de sonho, as risadas das zoações eram muitas. O swell continuava pequeno nas ilhas, mas a área em que estávamos era propícia para marolas. Ficamos para esperar um swell que viria para Greenbush nos dois dias finais da trip.

Ao acordarmos no dia seguinte, estávamos chegando a mais uma onda que nunca havia surfado. Esta não estava na lista das boas de Mentawai, mas, mesmo com mar pequeno em todos os outros locais, pegamos ondas entre 3 a 6 pés com bastante volume. O pico até lembrava um Sunset Point quebrando de noroeste, onde a parede entrava alinhada no ponto do drop e depois vinha fazendo uma curva à frente e aumentando de tamanho. Nesse momento, muitas vezes ela engordava, mas quando chegava ao inside, em uma seção bem rasa, proporcionava um tubo e algumas rasgadas fortes, sempre com muita emoção.

Nesse pico, aproveitei pra pegar a minha câmera e gravar a turma seguindo por trás ou pela frente das ondas. Foi bem divertido e gerou boas imagens. Mais tarde, aliadas às imagens feitas por Bruno Veiga, fizeram do pós-jantar mais um momento agradável a bordo da embarcação.
No penúltimo dia, acordamos em Greenbush, e a onda também parecia acordar aos poucos. A turma, já bem cansada, olhava umas séries demoradas que aos poucos iam mostrando a cara. Nosso capitão Bruno, como muitas vezes de costume, abriu a session e no momento em que pegou a primeira, a turma foi se animando, ao mesmo tempo em que as séries iam ficando mais constantes.

Por Greenbush ser uma onda para experts e bem perigosa na seção do inside, a galera ia se soltando aos poucos. Tiago, que no primeiro dia da trip parecia acanhado mediante o reef e às ondas maiores, botou as mangas pra fora e não parava de pegar onda. Foi muito legal ver sua evolução, tanto dele como de todos. Leandro, que estava sempre com o pranchão, buscou uma menor, uma Evolution 7’6”, e saiu-se bem. Felipe Correa e Hugo, em especial, não paravam de pegar onda. Felipe Feijão deu um drop em uma das maiores do dia e também despencou lá de cima em outra da série. Subia rindo, pois, pra quem vem de “Niquite”, tava suave, mesmo sendo fundo de pedras naquele momento. Luis Henrique estava sempre divertindo o lineup, assim como Marcelo Pretto. Aliás, esse já tinha virado mais que atração com seu humor hilário. Ninguém escapava de suas brincadeiras.

Gustavo Camerino e Fernando Fefa pegaram altas. Infelizmente Luis Rodarte havia visitado os corais no dia anterior e preferiu ficar seco, mas acompanhou o desempenho da galera e vibrou como se estivesse surfando junto.
À noite, ancorados em uma pacata baia, as Bintangs no deck do barco eram muitas. Um subwoofer potente bombava um som e a galera se divertia quebrando a calma do lugar. Tripulantes de dois barcos ancorados ao lado do Star Koat não devem ter acreditado na zona da galera que pulava sob as batidas de Vintage. Para a última manhã, o vento, que era forte, diminuiu e aproveitamos uma session muito boa em Macarronis.

Não tínhamos reservas para estar ali, mas Felipe Correia, um dos nossos parceiros, iria nos deixar para se hospedar no resort. Logo por uma boa causa (risos), pegamos altas ondas enquanto fazíamos o transfer do brother. Com a galera já cansada, era hora de arrumar as pranchas para iniciarmos a longa travessia de volta ao porto de Padang. Ao amanhecer, a alegria de todos era visível. Em meio às despedidas da tripulação, já no atracadouro, constatamos a grande quantidade de barcos que já não estava operando. Logo vimos o porquê de ter surfado alguns picos sozinhos. Sem dúvida, quem pensava que fim de temporada em Mentawai seria de ondas fracas e muitas cabeças na água, enganou-se. Falando em nome de todos, a galera fez a mala em uma das trips mais divertidas em que participamos. “Masura Bagata”!

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